sábado, 16 de abril de 2022

Três perguntas econômicas

A Petrobras vai mal? Os índices de inflação eram bons há 20 anos? Por que aqui as agências de rating ainda são levadas a sério?
por Luiz Antonio Cintra / 04/12/2013 /Carta Capital
1)    O noticiário recente tem engrossado a campanha contra a gestão da Petrobras. Fala-se em “pobre estatal”, em uma suposta “hemorragia” do caixa da empresa, como se a Petrobras fosse uma das companhias X e estivesse à beira da falência. Tudo porque o governo não encampou o “reajuste automático” das tarifas, eufemismo para a indexação dos preços dos combustíveis, tão desejada pelos acionistas, para quem quanto maior a rentabilidade da estatal, melhor. A despeito da chiadeira, o lucro nos primeiros nove meses deste ano foi de 17 bilhões de reais, 22% maior que o registrado no ano passado. A Petrobras vai mal?
2)    Fico com a pulga atrás da orelha ao ver os economistas do PSDB falarem na preocupação que lhes causam os índices de inflação. Caso do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga (a “raposa ética”, segundo alguns críticos ferinos), que invariavelmente faz ar de “se fosse comigo seria bem diferente” quando ele trata de analisar a conjuntura. Sugiro uma olhada nos índices de inflação do período de Fraga no BC. Entre 1999 e 2002, o IPCA acumulado em 12 meses foi de 8,94%, 5,97%, 7,67% e 12,53%, respectivamente. Um desempenho sensacional?
3)    As agências de rating ameaçam cortar a avaliação de risco do Tesouro brasileiro em 2014. Mas qual nota essas mesmas agências merecem receber, diante do histórico de erros? Na semana passada, por exemplo, as três maiores, Standard & Poor´s, Fitch e Moody´s, foram acionadas em mais um processo na Justiça dos EUA, por investidores prejudicados por suas avaliações supostamente técnicas. Exigem indenização de 1 bilhão de dólares. “São ratings ideológicos”, resume o prêmio Nobel Paul Krugman, em referência ao rebaixamento da nota de crédito da França. Por que aqui essas agências ainda são levadas a sério?

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Revista de Estudos Atrasados

Leandro Narloch e Duda Teixeira
Folha de S.Paulo
20/10/2011

A expressão "estudos avançados" deveria designar discussões científicas de ponta, novas interpretações históricas e atualizações a teorias consagradas. A revista "Estudos Avançados", da USP, costuma publicar artigos com esse perfil desde que foi criada, em 1987. Não é o caso do número 72, nas bancas neste mês. O "Dossiê Cuba", que compõe a maior parte da edição, apresenta estudos que são tudo, menos avançados: artigos sem nenhuma intenção científica e peças de propaganda escritas por pessoas ligadas ao governo cubano.

São ao todo 15 artigos de pesquisadores e jornalistas cubanos, e mais dois de brasileiros. Nenhum dos autores é crítico de um regime que, todos hão de concordar, desperta opiniões divergentes.

O texto mais emblemático é "A democracia em Cuba", do ensaísta Julio César Guanche.
O autor afirma que a revolução de 1959 consagrou um "novo conceito de democracia, com o intuito de garantir o acesso à vida política ativa de grandes setores da população" e defende a manutenção do que chama de "unidade revolucionária" - a proibição imposta aos cubanos de fazer reuniões e formar partidos, jornais ou sindicatos.

Um trecho de "Ciência em Cuba: uma aposta pela soberania" lembra um vídeo institucional: "Inaugurada em Havana pelo próprio presidente Fidel Castro, a entidade conhecida pela sigla CIGB [Centro de engenharia genética e biotécnica] contribuiu de maneira excepcional para colocar Cuba entre os líderes mundiais de tão importante setor". Diversos textos seguem o padrão de citar Fidel no início, mencionar a situação de Cuba antes de 1959 e descrever conquistas da revolução.

O artigo "A educação em Cuba entre 1959 e 2010" não traz discussões sobre métodos de ensino ou experiências mais ou menos eficientes. Em vez disso, o autor reproduz diversas falas de Fidel Castro, incluindo até mesmo a tautologia "é necessário mudar tudo o que deva ser mudado". Do mesmo modo, "Um olhar para a saúde pública cubana" não tem problematização ou comparação de dados, como é praxe nos artigos da revista da USP. O autor se destina apenas a destacar supostas conquistas médicas obtidas em Cuba por causa da "vontade política do governo revolucionário". Não há menção à falta de remédios ou aos subornos exigidos por médicos, queixas tão frequentes entre cubanos menos comprometidos.

Quem assina o texto sobre a saúde de Cuba é o jornalista José A. de la Osa, que ensinava censura, ou melhor, ministrava a disciplina de "política informativa" da Universidade de Havana. De acordo com ex-alunos da universidade, Osa ensinava quais eram os temas que não poderiam figurar nos jornais oficiais, como fracassos econômicos, opiniões de dissidentes e crimes chocantes.

A edição é ilustrada com fotos fornecidas pelo governo cubano. As imagens das páginas 47 e 76 são relíquias da propaganda comunista. Trata-se de reconstituições, à la Stálin, de episódios do movimento revolucionário.

Deve ser direito de qualquer pessoa manifestar a opinião que desejar, inclusive as mais ultrapassadas. Mas se essa manifestação envolve dinheiro público, então é preciso acatar opiniões divergentes e realizar apenas as tarefas para as quais os recursos se destinam. A revista "Estudos Avançados" funciona com fundos do governo federal e da USP, que por sua vez ganha 5% de todo o ICMS de São Paulo. São cerca de R$ 3 bilhões por ano pagos por empresas capitalistas e por cidadãos de todas as classes sociais, que vivem numa democracia com liberdade de pensamento. Não é justo que parte desse dinheiro ajude a mascarar a mais longa ditadura do mundo atual.

Leonardo Narloch e Duda Teixeira são jornalistas e autores do "Guia Politicamente Incorreto da América Latina" (editora LeYa).

Beluzzo assina “Manifesto Comunista”

Pedro Venceslau/Brasil Econômico
27/10/2011

Nem só de Marx e Engels vive o “ Manifesto Comunista”. Afastado dos holofotes desde que deixou a presidência do Palmeiras, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, que foi conselheiro de Lula, interlocutor de José Serra e professor de Dilma no mestrado, saiu em defesa do...PC do B. Ele foi um dos signatários de uma versão pós-moderna do manifesto em defesa do partido comunista que a sigla esperava usar no reforço da blindagem do ministro demissionário. Outro que assinou embaixo foi o também economista Marcio Pochmann, que além de presidente do Ipea é o preferido de Lula para disputar a prefeitura de Campinas ano que vem pelo PT. O texto diz que as denúncias contra Orlando Silva são parte de uma “onda de histeria macarthista deflagrada nos últimos dias contra o Partido Comunista do Brasil (PCdoB)”. Em tempo: Luiz Carlos Prestes Filho, filho de Luís Carlos Prestes, enviou carta ao partido agradecendo a homenagem ao pai no programa de TV da legenda.

Ah, risível. O Palmeiras se livrou deste valoroso marxista, nós não.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Filme 'Marighella' celebra a figura do revolucionário

Luiz Zanin Oricchio
O Estado de S.Paulo
24 de outubro de 2011

Há um lado afetivo em "Marighella", documentário de Isa Grispum Ferraz sobre o guerrilheiro, morto pela polícia política em plena ditadura. Carlos Marighella (1911-1969), quadro histórico do Partido Comunista e dirigente da ALN (Ação Libertadora Nacional), era tio de Isa.
Assim, à reconstrução histórica da figura do militante mesclam-se recordações afetivas da diretora, que fala de um tio carinhoso, porém cercado de mistérios, que aparecia de vez em quando e, em seguida, sumia do mapa. Fala de como a notícia da morte do tio veio pela TV quando a família assistia a um Corinthians x Santos muito especial, pois naquela noite caía a série de vitórias de 11 anos seguidos do time da Vila Belmiro sobre seu rival.
É preciso dizer que essa pátina familiar é muito tênue e que o cerne do filme é a reconstrução histórica de uma trajetória. Esse percurso é refeito de maneira ampla, tendo como consultor o jornalista Mário Magalhães, que prepara a sua biografia. Isa utiliza entrevistas com militantes que combateram ao lado do guerrilheiro, o depoimento de Clara Charf, sua viúva, de seu filho Carlos Augusto Marighella e de figuras notáveis na resistência à ditadura, como o professor Antonio Candido, que tem Marighella na conta de um herói do povo brasileiro. Há, além disso, narrativa em off de poemas e escritos de Marighella, interpretados pelo ator Lázaro Ramos, e um arrepiante rap de Mano Brown, celebrando a biografia do personagem e destacando sua luta em favor dos pobres.
"Marighella" não é um documento jornalístico sobre a controvertida figura de um guerrilheiro. Não ouve o outro lado, ou os outros lados, como em termos ideais deveria fazer uma reportagem de jornal, uma pesquisa acadêmica ou mesmo uma biografia isenta. Não é imparcial. É uma homenagem e filme de um lado: o de uma pessoa da família, e também o de uma parcela da sociedade brasileira, aquela que simpatizou com a luta contra a ditadura militar. Mesmo aí encontram-se divisões. É possível que quem tenha fé na resistência pacífica não nutra simpatia por quem pegou em armas para se opor.
Controvérsias à parte, Marighella foi figura exemplar na luta contra a ditadura e morreu defendendo suas ideias, sem medo e sem recuar um passo. O homem que cai nessas circunstâncias não morre; vira mito. Fica encantado, como dizia Guimarães Rosa, em outro contexto. 

Que o "documentário" sobre o "revolucionário" não tenha nenhum compromisso com imparcialidade, vá lá. Poderiam chamar de documentário-homenagem, pelo menos, pra não enganar os incautos. Agora, o jornal ainda tem esse compromisso, se não me engano. Bastaria um texto  ao lado, lembrando nomes das vítimas do terrorista, que, além de "sua luta em favor dos pobres", como diz o crítico sem nenhuma vergonha, queria implantar uma ditadura comunista no país. O textículo tenta enganar o leitor, que se agarra na esperança de uma "outro lado", mesmo que minúsculo, mas o último parágrafo é quase uma declaração de amor. Controvérsias à parte, não senhor! "Figura exemplar" pra quem, pele vermelha? O que vem na sequência do texto beira o asqueroso, é melhor nem repetir. A família de Guimarães Rosa pode, no mesmo contexto, reclamar, com razão.

domingo, 19 de junho de 2011

Lula critica mídia e agradece 'blogueiros'


Ex-presidente participou de encontro com blogueiros que apoiam o governo em Brasília

17 de junho de 2011 | 21h 17

Felipe Recondo e Karla Mendes, de O Estado de S.Paulo
BRASÍLIA - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a atuação da imprensa e agradeceu a "blogueiros" por terem, nas suas palavras, revelado "uma farsa que estava acontecendo" durante a campanha eleitoral do ano passado. Lula referia-se ao episódio em que o então candidato do PSDB, José Serra, teria sido atingido por um objeto durante uma passeata no Rio de Janeiro.
No II Encontro de Blogueiros Progressistas, em Brasília, o ex-presidente disse ter viajado por 16 países desde que saiu do governo e afirmou que o comportamento da mídia, especialmente na América Latina, "é quase lamentável". "Eu nunca me preocupei com a crítica se ela é verdadeira, o que me preocupa são as inverdades, a má-fé, as difamações, como aquela pedra, aquele meteorito de papel que caiu na cabeça de um candidato no ano passado", afirmou Lula.
"Foi quando eu disse que nosso adversário tinha que ter a coragem de pedir desculpa ao povo brasileiro", acrescentou. "É o único momento em que um candidato sai mais fraco do que quando entrou (na campanha eleitoral)", disse.
Lula afirmou que foram os "blogueiros" que impediram que esse episódio gerasse prejuízo eleitoral para a então candidata Dilma Rousseff. "Vocês tiveram papel extraordinário. Vocês demonstraram uma coisa fantástica: o povo não precisa mais de intermediários", afirmou sob aplausos dos participantes do encontro.
O ex-presidente pediu que aos "blogueiros" ajam com seriedade e façam críticas sérias, sem perder a razão, "porque a direita não brinca em serviço". E, novamente, criticou José Serra: "Quando vocês foram xingados de blogueiros sujos (por Serra durante a campanha eleitoral), vocês foram xingados por quem promovia a sujeira".
E na presença do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, Lula deu um conselho que ele teria aprendido durante seu governo para levar adiante os projetos na área, como a universalização da banda larga.
No dicionário do Lulopetismo, progressista quer dizer chapa-branca. Gente desprovida de estofo, seres de palha. Seguem o líder, o maior farsante da história deste país cheio de farsantes, como cachorros famintos. Cambada de lambe-botas. 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Primor do chapa-branquismo



Ele não gosta de versões oficiais

Mauro Júnior e José Roberto de Ponte Tinta Negra 360 págs., R$ 39,90 / BB+
Marlene Bergamo/Folhapress


Kotscho: elogios desenfreados de William Waack, Ruy Castro e Mino Carta, entre outros
Quem acha que uma boa biografia não pode deixar transparecer o entusiasmo do autor em relação ao biografado fará bem em manter distância deste livro sobre o jornalista Ricardo Kotscho. Mais do que uma biografia, é um livro tributo. Os autores não apenas deixam clara sua condição de fãs como registram toda a admiração que Kotscho provoca também em seus pares. Ele é quase uma unanimidade entre jornalistas de várias formações e diferentes posições políticas. Para começar, há duas apresentações, uma de Clóvis Rossi e outra de Eliane Cantanhêde. E, ao longo de todo o livro, os elogios vêm de William Waack, Augusto Nunes, Ricardo Setti, Ruy Castro, Mino Carta e Carlos Brickmann, entre outros. Não é raro alguém dizer que Kotscho é o melhor repórter de sua geração ou revelar que gostaria de ter seu talento. Desafeto identificado pelo nome há só um - Boris Casoy, devidamente ouvido pelos autores sobre as queixas e acusações do biografado. Pode-se adiantar que o livro não foi visto por nenhum dos dois como oportunidade para fazer as pazes.

Talvez não fizesse mesmo sentido uma biografia distanciada de alguém que sempre foi identificado pela emotividade - mesmo que o livro, cujo subtítulo é "O Jornalismo de Ricardo Kotscho", praticamente fale apenas de seu trabalho, passando ao largo da vida pessoal. Acontece que, como informa Eliane Cantanhêde, "o estilo Kotscho de ser refletiu-se no estilo Kotscho de escrever". E Augusto Nunes se permite dizer que "a diferença entre o Kotscho e os outros é que ele escreve com o coração".
Os autores do livro, Mauro Junior e José Roberto de Ponte, são jornalistas jovens, mas nostálgicos de um tipo de jornalismo que eles não conheceram e, como concorda a maioria dos entrevistados, não existe mais. Descreve-se uma época romântica que Kotscho teria encarnado como ninguém, na pessoa do jornalista que sai da redação procurando a notícia inesperada. Sua lição é: "Dê uma de artista e faça de conta que você está com a melhor matéria do dia na mão. Pegue só o tema que lhe deram, esqueça o resto da pauta e vá à luta".
Kotscho não gosta das versões oficiais nem de fazer denúncias. Prefere os personagens desconhecidos aos poderosos. É autor daquele tipo de reportagem que, como ele mesmo ironiza, ficou conhecida como "matéria leve, matéria de clima ou ambiente, matéria de 'side', ou seja, história paralela, e, mais tarde, matéria brega". Mesmo assim, seus depoimentos e textos reproduzidos no livro cobrem partes imensas da história do Brasil (além de uma Copa do Mundo e a morte de um papa), a começar pelo assassinato do operário Manoel Fiel Filho durante a ditadura militar, revelado por ele, até as greves do ABC e as Diretas Já, chegando, finalmente, à sua experiência como secretário de Imprensa do presidente Lula - talvez o trecho mais interessante do livro, quando Kotscho passa de mestre a aprendiz, vivendo conflitos intensos.
Um aspecto interessante da rotina de trabalho do jornalista quando trabalhava em redação era fazer seu editor ouvir tudo o que ele havia recolhido na rua, esperando contribuições. É exatamente isso o que mais falta neste livro - um bom trabalho de edição. Já no primeiro e curto capítulo, alguns escorregões dos autores fazem temer pelo que pode vir depois: o colégio Santa Cruz é qualificado como "de ideologia canadense", David Nasser é identificado como "grande jornalista" e informa-se que o largo 13 de Maio fica no "centro de São Paulo". Embora em concentração menor, o livro ainda vai incorrer em várias outras confusões, incorreções e perdas de sentido antes de chegar ao fim.

Os autores, claro, são fãs. O resenhista é fã. Deus é fã. Kotscho uma espécie de Chico Buarque do jornalismo. Especialmente engraçado é o trecho que diz que Kotscho não gosta de versões oficiais. Sei, mas entre elas prefere as do PT. Não por acaso a capa da semana da revista editada por ele. "Brasileiros", é "Valeu, Lula". Kotscho é o primeiro da lista para o prêmio "Coro dos Contentes".