sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Ele não gosta de versões oficiais

Mauro Júnior e José Roberto de Ponte Tinta Negra 360 págs., R$ 39,90 / BB+
Marlene Bergamo/Folhapress


Kotscho: elogios desenfreados de William Waack, Ruy Castro e Mino Carta, entre outros
Quem acha que uma boa biografia não pode deixar transparecer o entusiasmo do autor em relação ao biografado fará bem em manter distância deste livro sobre o jornalista Ricardo Kotscho. Mais do que uma biografia, é um livro tributo. Os autores não apenas deixam clara sua condição de fãs como registram toda a admiração que Kotscho provoca também em seus pares. Ele é quase uma unanimidade entre jornalistas de várias formações e diferentes posições políticas. Para começar, há duas apresentações, uma de Clóvis Rossi e outra de Eliane Cantanhêde. E, ao longo de todo o livro, os elogios vêm de William Waack, Augusto Nunes, Ricardo Setti, Ruy Castro, Mino Carta e Carlos Brickmann, entre outros. Não é raro alguém dizer que Kotscho é o melhor repórter de sua geração ou revelar que gostaria de ter seu talento. Desafeto identificado pelo nome há só um - Boris Casoy, devidamente ouvido pelos autores sobre as queixas e acusações do biografado. Pode-se adiantar que o livro não foi visto por nenhum dos dois como oportunidade para fazer as pazes.

Talvez não fizesse mesmo sentido uma biografia distanciada de alguém que sempre foi identificado pela emotividade - mesmo que o livro, cujo subtítulo é "O Jornalismo de Ricardo Kotscho", praticamente fale apenas de seu trabalho, passando ao largo da vida pessoal. Acontece que, como informa Eliane Cantanhêde, "o estilo Kotscho de ser refletiu-se no estilo Kotscho de escrever". E Augusto Nunes se permite dizer que "a diferença entre o Kotscho e os outros é que ele escreve com o coração".
Os autores do livro, Mauro Junior e José Roberto de Ponte, são jornalistas jovens, mas nostálgicos de um tipo de jornalismo que eles não conheceram e, como concorda a maioria dos entrevistados, não existe mais. Descreve-se uma época romântica que Kotscho teria encarnado como ninguém, na pessoa do jornalista que sai da redação procurando a notícia inesperada. Sua lição é: "Dê uma de artista e faça de conta que você está com a melhor matéria do dia na mão. Pegue só o tema que lhe deram, esqueça o resto da pauta e vá à luta".
Kotscho não gosta das versões oficiais nem de fazer denúncias. Prefere os personagens desconhecidos aos poderosos. É autor daquele tipo de reportagem que, como ele mesmo ironiza, ficou conhecida como "matéria leve, matéria de clima ou ambiente, matéria de 'side', ou seja, história paralela, e, mais tarde, matéria brega". Mesmo assim, seus depoimentos e textos reproduzidos no livro cobrem partes imensas da história do Brasil (além de uma Copa do Mundo e a morte de um papa), a começar pelo assassinato do operário Manoel Fiel Filho durante a ditadura militar, revelado por ele, até as greves do ABC e as Diretas Já, chegando, finalmente, à sua experiência como secretário de Imprensa do presidente Lula - talvez o trecho mais interessante do livro, quando Kotscho passa de mestre a aprendiz, vivendo conflitos intensos.
Um aspecto interessante da rotina de trabalho do jornalista quando trabalhava em redação era fazer seu editor ouvir tudo o que ele havia recolhido na rua, esperando contribuições. É exatamente isso o que mais falta neste livro - um bom trabalho de edição. Já no primeiro e curto capítulo, alguns escorregões dos autores fazem temer pelo que pode vir depois: o colégio Santa Cruz é qualificado como "de ideologia canadense", David Nasser é identificado como "grande jornalista" e informa-se que o largo 13 de Maio fica no "centro de São Paulo". Embora em concentração menor, o livro ainda vai incorrer em várias outras confusões, incorreções e perdas de sentido antes de chegar ao fim.

Os autores, claro, são fãs. O resenhista é fã. Deus é fã. Kotscho uma espécie de Chico Buarque do jornalismo. Especialmente engraçado é o trecho que diz que Kotscho não gosta de versões oficiais. Sei, mas entre elas prefere as do PT. Não por acaso a capa da semana da revista editada por ele. "Brasileiros", é "Valeu, Lula". Kotscho é o primeiro da lista para o prêmio "Coro dos Contentes".   

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