sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Ele não gosta de versões oficiais
Mauro Júnior e José Roberto de Ponte Tinta Negra 360 págs., R$ 39,90 / BB+
Marlene Bergamo/Folhapress
Kotscho: elogios desenfreados de William Waack, Ruy Castro e Mino Carta, entre outros
Os autores do livro, Mauro Junior e José Roberto de Ponte, são jornalistas jovens, mas nostálgicos de um tipo de jornalismo que eles não conheceram e, como concorda a maioria dos entrevistados, não existe mais. Descreve-se uma época romântica que Kotscho teria encarnado como ninguém, na pessoa do jornalista que sai da redação procurando a notícia inesperada. Sua lição é: "Dê uma de artista e faça de conta que você está com a melhor matéria do dia na mão. Pegue só o tema que lhe deram, esqueça o resto da pauta e vá à luta".
Kotscho não gosta das versões oficiais nem de fazer denúncias. Prefere os personagens desconhecidos aos poderosos. É autor daquele tipo de reportagem que, como ele mesmo ironiza, ficou conhecida como "matéria leve, matéria de clima ou ambiente, matéria de 'side', ou seja, história paralela, e, mais tarde, matéria brega". Mesmo assim, seus depoimentos e textos reproduzidos no livro cobrem partes imensas da história do Brasil (além de uma Copa do Mundo e a morte de um papa), a começar pelo assassinato do operário Manoel Fiel Filho durante a ditadura militar, revelado por ele, até as greves do ABC e as Diretas Já, chegando, finalmente, à sua experiência como secretário de Imprensa do presidente Lula - talvez o trecho mais interessante do livro, quando Kotscho passa de mestre a aprendiz, vivendo conflitos intensos.
Um aspecto interessante da rotina de trabalho do jornalista quando trabalhava em redação era fazer seu editor ouvir tudo o que ele havia recolhido na rua, esperando contribuições. É exatamente isso o que mais falta neste livro - um bom trabalho de edição. Já no primeiro e curto capítulo, alguns escorregões dos autores fazem temer pelo que pode vir depois: o colégio Santa Cruz é qualificado como "de ideologia canadense", David Nasser é identificado como "grande jornalista" e informa-se que o largo 13 de Maio fica no "centro de São Paulo". Embora em concentração menor, o livro ainda vai incorrer em várias outras confusões, incorreções e perdas de sentido antes de chegar ao fim.
Os autores, claro, são fãs. O resenhista é fã. Deus é fã. Kotscho uma espécie de Chico Buarque do jornalismo. Especialmente engraçado é o trecho que diz que Kotscho não gosta de versões oficiais. Sei, mas entre elas prefere as do PT. Não por acaso a capa da semana da revista editada por ele. "Brasileiros", é "Valeu, Lula". Kotscho é o primeiro da lista para o prêmio "Coro dos Contentes".
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